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A Guerra das Pelúcias PDF Imprimir E-mail


Acusações de roubo de catálogo, sonegação de impostos, calúnias... Como dois sócios passaram do mundo dos contos de fadas ao mundo dos tribunais.

Por Pedro Carvalho

O empresário Vagner Lefort fica nervoso quando conta o caso. Num restaurante especializado em bife tartar, na Zona Oeste de São Paulo, ele interrompe a entrevista. “Olha minha mão, estou tremendo. Estou suando. Tenho tomado até remédio para dormir”, ele diz. Quem teria tirado seu sono é o ex-sócio Luiz Fiorini, respeitado executivo do setor de brinquedos. Durante quase 15 anos, os dois comandaram a Long Jump, empresa que fabrica e importa bichos de pelúcia, jogos para crianças, estojos de maquiagem infantil e itens do tipo. A marca tem, por exemplo, a exclusividade nacional no fornecimento de pelúcias da Disney: qualquer Mickey ou Pluto que você vir por aí provavelmente foi vendido à loja por eles.

Na fábrica, em São Paulo, personagens famosos colorem as prateleiras – Bob Esponja, Buzz Lightyear, Angry Birds, Nemos e mais franquias de sucesso.

A Long Jump, porém, já foi um negócio maior. Em 2011, faturava R$ 100 milhões e estava entre as cinco principais fornecedoras de redes de lojas como a Ri Happy e a PB Kids. Eram os bons tempos. No ano passado, as vendas não passaram de R$ 45 milhões e a marca se tornou “o vigésimo fornecedor dessas lojas, se tanto”, diz Lefort. O tombo veio acompanhado de um desentendimento entre os sócios, que agora trocam acusações e processos judiciais.

De um lado, Lefort pede R$ 70 milhões a Fiorini – que foi trabalhar numa concorrente – por suposta concorrência desleal. Do outro, Fiorini processa Lefort para pedir a dissolução da sociedade na Long Jump. Ele o acusa de desvios financeiros e outras condutas que teriam desestruturado o negócio.

No início de 2012, Fiorini apresentou ao sócio a Multilaser, que se dizia interessada em comprar a Long Jump. A Multilaser faz eletrônicos e fatura R$ 1 bilhão por ano. Emprega 2 mil funcionários, é sediada em São Paulo e tem fábrica em Extrema (MG). Em agosto daquele ano, as duas empresas assinaram um NDA (non-disclosure agreement), acordo de confidencialidade comum em negociações de compra e venda. Significa que a companhia a ser comprada vai revelar os meandros da operação para a outra, que se compromete a não usar as informações se o negócio não for concluído.

Novos traços

Todo ano, a Disney manda novos moldes para Mickeys e Minies de pelúcia. Eles vivem em constantes (e imperceptíveis) mudanças de desenho

A ideia de vender a Long Jump era cogitada desde 2011. Foi quando uma venda para o grupo italiano Giochi Preziosi chegou muito perto de ser concluída. Os italianos fizeram oito meses de diligências, apoiados por auditorias internacionais, e concordaram em pagar US$ 78 milhões. Mas uma turbulência política na Itália afetou o caixa do banco Sanpaolo, acionista do grupo empresarial, cancelando a compra.

O valor da proposta deixou animados os donos da Long Jump. Por isso, no ano seguinte, quando a Multilaser mostrou interesse na empresa, as portas não demoraram a ser abertas. Após assinarem o NDA, as conversas começaram. Numa troca de e-mails de setembro de 2012, um sócio da Multilaser chamado Alexandre Ostrowiecki pede informações a Fiorini: balanço da contabilidade, vendas acumuladas para cada cliente, lista de licenças e “outras coisas que você tenha aí e que sejam relevantes”.

Em seguida, viria a fase das contrapropostas. Mas o formato sugerido para o negócio teria desagradado a Lefort. “Queriam pagar pouco e levar só a parte boa”, diz. “A gente passaria para eles fornecedores e clientes, mas manteria tudo que está ‘do administrativo para trás’ [como obrigações trabalhistas, fiscais e outras].” Em outra troca de e-mails, ainda em setembro, Ostrowiecki escreve aos sócios: “Pediram sinal de R$ 20 milhões, com estoque [que vale] entre R$ 15 milhões e R$ 17 milhões. Sugiro contraproposta de [comprar o] estoque à vista e a [preço de] custo. Pediram 36 parcelas de R$ 458 mil, sugiro 24 de R$ 300 mil”.

Lefort diz que não queria vender daquela forma. Fiorini queria. Ele afirma que a empresa estava em dificuldades e aquela seria uma “última chance”. “Eu tinha conseguido antecipar vendas e trazer recursos para salvar o caixa, mas não poderia pedir aquilo ao mercado de novo”, afirma Fiorini. “A empresa estava com uma situação bem grave, de inadimplência com bancos, devendo para um grande fornecedor lá fora”, diz, sem citar o fornecedor. Fiorini teria dito a Lefort que o negócio ia resolver o problema deles. “Se [o negócio] não acontecesse, eu ia procurar o que fazer, porque precisava me sustentar. Não tinha mais salário desde setembro.”

Apesar da insistência do sócio, a certa altura Lefort deixou de responder os e-mails da Multilaser. Ostrowiecki mandou algumas mensagens para cobrar um retorno, sem sucesso. Acabou escrevendo aos envolvidos em 30 de novembro de 2012 para informar que, sem resposta de Lefort, o negócio estava cancelado, porque a Multilaser fechara o planejamento do ano seguinte.

Segundo acusa Lefort, toda a negociação não teria passado de um jogo de cena. Para ele, Fiorini já teria acertado sua ida para a Multilaser, para fundar um novo negócio de brinquedos, cujo catálogo acabaria por ser muito parecido com o da Long Jump. Fiorini nega e conta outra versão. Em 30 de novembro, o mesmo dia em que a negociação foi suspensa, Fiorini deixou a Long Jump. “Ele apareceu na porta da minha sala e avisou que estava saindo”, diz Lefort. Na sua versão, Fiorini lembra que Lefort já estava informado da intenção de sair. Ele só teria tomado a decisão de trabalhar na Multilaser – em que agora comanda as operações da nova Multikids – após essa saída.

“Sem meus sócios”

No restaurante, Lefort afasta o prato de tartar para abrir espaço na mesa e espalha papéis sobre ela. Cada folha tem um traço que a divide ao meio: do lado esquerdo está um determinado produto da Long Jump; do outro, sua nova versão da Multikids. As semelhanças são evidentes. Ele mostra 16 exemplos. O que eles revelam é que o mesmo consumidor que viu na loja, por exemplo, um estojo de maquiagem Toy Story pode pouco depois ter encontrado o mesmo produto, no mesmo local, com pequenas mudanças na embalagem – e o selo da Multikids. “Ele levou 60% dos nossos produtos”, diz Lefort. Cada folha tem ainda um quadro com anotações. Elas mostram qual teria sido o gasto da Long Jump com aquele item: viagens a feiras em Hong Kong, pesquisas de aceitação de mercado, despesas com Sedex, uso da estrutura da empresa e afins.

Lefort afirma que só soube das semelhanças nos catálogos no início do ano seguinte, numa feira do setor, em São Paulo. Foi ali que teria começado a investigar a saída de Fiorini. “Fui resgatar e-mails no servidor”, diz. As mensagens poderiam sugerir que, durante a conversa entre as empresas, Fiorini já negociava a ida para a Multilaser. No mesmo e-mail em que Ostrowiecki pedia informações sobre as contas da Long Jump, em setembro de 2012, ele diz a Fiorini que quer marcar um encontro para “te passar também a proposta de trabalho para você ter uma ideia do que seria a parte de remuneração de diretor”. Dias depois, Fiorini responde: “Para falar da minha situação futura na Multilaser eu gostaria de fazer uma reunião somente com a minha presença (sem meus sócios)”.

Fiorini e Ostrowiecki dão uma explicação. Eles afirmam que a “situação futura na Multilaser” significa que ele assumiria a parte de brinquedos da Multilaser caso a venda tivesse acontecido – ou seja, seguiria na “Long Jump”, que passaria a ser da Multilaser. “A ideia de que Fiorini passaria a trabalhar na Multilaser nunca foi um segredo. Era aberta, clara e até mesmo uma condição para viabilizar qualquer investimento da Multilaser na Long Jump”, diz Ostrowiecki. “É natural que a Multilaser, ao entrar em um segmento até então desconhecido para ela, quisesse que pelo menos um dos sócios da Long Jump permanecesse no negócio”, diz. “[Não queria a presença dos sócios] porque era para acertar salário, não teria nada a ver eles participarem”, afirma Fiorini.

Lefort segue com as acusações. “Ele foi para uma feira de brinquedos em Hong Kong, em novembro [de 2012], com o pessoal da Multilaser, sem me contar, com despesas pagas pela Long Jump”, diz Lefort. O ex-sócio afirma que o encontro com os futuros patrões foi casual e eles não trataram de negócios. “Na mesma época tem a Electronics Fair, eles estavam lá por isso”, diz.

Para Lefort, o ex-sócio teria usado informações da Long Jump para criar um catálogo “clone” na Multikids. “Ele levou o banco de fornecedores e clientes, pesquisas, até amostras de brinquedos”, diz Lefort, e exibe um vídeo no qual Fiorini carrega caixas que teriam essas amostras. Fiorini se defende. “[Não levei] nada que não esteja no meu cérebro. Não levei lista de clientes, não preciso disso. É um conhecimento meu, de 20 anos de mercado”, afirma. Ele é tido como um dos mais competentes “caçadores de novos brinquedos” do Brasil. “É o terceiro melhor, só atrás dos especialistas da Estrela e da Grow”, diz um antigo empresário do ramo.

Sobre os catálogos parecidos, Fiorini vê como questão de livre concorrência. “Os fornecedores lá fora são independentes, vendem para quem querem. A Long Jump não tinha a mínima condição de comprar nada [as novas linhas], não tinha caixa, tanto que devia lá fora e estava com o nome ruim”, ele diz. “Outras linhas acabaram na mão de outras distribuidoras, que não a Multilaser, como as Princesas Disney”, afirma.

Um divórcio ruidoso

Uma fonte com conhecimento amplo do setor define o caso como “um divórcio ruidoso” entre os sócios. “Sem querer tomar partido, dá para dizer que o processo todo de saída dele não foi saudável”, diz. “O que todo mundo [no mercado] diz é que aconteceram coisas não comuns nessa indústria, não tem histórico de procedimento assim.”

Lefort e outros funcionários também acusam Fiorini de ter, de certa forma, trabalhado para a Multilaser enquanto ainda estava na Long Jump. “Ele bloqueava entregas de mercadorias, dizendo aos fornecedores que poderiam entregar na Multilaser, porque agora era tudo a mesma coisa”, diz Camila Ayako, gerente de licenciamento de produtos. Ele rebate. “Sou fundador da empresa [Lefort entrou depois no negócio], ninguém gosta mais da Long Jump do que eu. Fiz ela sair do zero e chegar aonde chegou. Fiz o possível, até não ver saída.”

Os motivos pelos quais “não via saída” estariam descritos em outro processo judicial. Nele, Fiorini pede a dissolução da sociedade para deixar a Long Jump (ele tem 25% da empresa, Lefort tem 50% e outro sócio, Sérgio Epstein, também antigo e respeitado empresário do ramo, tem 25%). Fiorini faz acusações sérias.

Ele pede para sair, segundo o documento, “(...) pelos desvios financeiros perpetrados pelo sócio (...), pelos atos de sonegação fiscal e interposição tributária” e uma série de supostos atos de má gestão. “[Produtos] ficaram retidos perante as autoridades alfandegárias, pelo simples fato do gestor [Lefort] não tratar os assuntos empresariais com a seriedade devida”, diz um trecho. “[Lefort] criou e operacionalizou empresas de fachada para interferir nos processos de importação (...), o que caracteriza interposição fraudulenta”, afirma outro. “Quando em crise, era comum ao sócio Vagner [Lefort] destruir a sala de trabalho, o que lamentavelmente era presenciado pelos funcionários. (...) Não economiza com luxos pessoais, porquanto na garagem particular guarda os veículos: BMW X6, Mini Cooper S Conversível, Mercedez-Benz CLS, dentre outros brinquedos.”

Agora é Lefort quem se defende. “É totalmente estapafúrdio. Sonegação fiscal? Ele não entende nada disso, não é a praia dele. Com nota fiscal eletrônica não tem mais fachada, não existe isso”, diz. “Então eu sonegava e ele não? O cara sabia de tudo que era feito. Não existe um sócio que sonega imposto: ou todos os sócios sonegam ou ninguém sonega. O que ele põe ali [no processo], ele está no rolo também.”

Sobre os carros, também contesta Fiorini. “O sócio capitalista da empresa fui eu. O capital de investimento foi trazido por mim. Eu tive carro bom a vida inteira”, afirma. Por fim, rebate a acusação de destempero. “Mentira. Um dia, uma vez, minha mesa de vidro quebrou, bateu uma coisa e quebrou. Tenho a empresa inteira de testemunha que nunca houve nada disso aqui.”

Sérgio Epstein, o terceiro sócio, ainda trabalha na Long Jump. Ele deixa a entender que existem problemas de gestão. “[Fiorini] não levou nada da empresa”, diz. “O Vagner assumiu toda a gestão há um ano e meio [deixando de lado os sócios] e também vejo problemas de gestão”, afirma. “Se eu conseguir, saio [da Long Jump] também.”

O divórcio afetou a imagem da empresa. Para Lefort, seria culpa de boatos que Fiorini teria espalhado. Um deles seria confirmado por Marcos Bononi, gerente da Nickelodeon, em depoimento à polícia. A história envolvia uma negociação de Tartarugas Ninjas. Diz Bononi que Fiorini “disseminou que a Long Jump estava em dificuldades financeiras e talvez não honrasse os compromissos”. O depoimento segue: “o declarante teve conhecimento que essas informações (...) também foram veiculadas nos pontos de venda (PB Kids e Ri Happy etc)”. Fiorini discorda. “Nunca falei para ninguém que a empresa estava quebrando, falei que estava sem caixa”, ele diz.

O caso das Tartarugas Ninjas fez Lefort entrar com uma ação, no ano passado, para impedir a venda dos brinquedos. Teve uma liminar favorável. Nos recursos seguintes, a Justiça deu razão a Fiorini. Para Luciano Minto, advogado de Fiorini, as bases do pedido de indenização são as mesmas, o que o deixa otimista. Do outro lado, Marcelo Pereira, que defende Lefort, vê uma zona cinzenta entre a livre iniciativa e a concorrência desleal. Em fevereiro, a Justiça extinguiu momentaneamente o processo, por defeitos formais, sem julgar o mérito. Lefort vai apelar. “É David contra Golias, estamos lidando com um grupo que fatura R$ 1 bilhão por ano”, diz Pereira.

A Disney foi procurada e não deu entrevista. As empresas seguem no jogo. A Long Jump renovou a licença de pelúcias da Disney. Mas só as pelúcias puras. Os bichinhos com mecanismo – que andam, falam ou mexem a cabeça? Foram para a Multilaser.

Fonte: Época Negócios 

 

 
   

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